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	<title>OBRA EM MOVIMENTO &#187; visão de mundo</title>
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	<description>Palavrantiga - Esperar é Caminhar!</description>
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		<title>A Cruz &#8211; por Luiz Felipe Pondé</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 23:48:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Refexão]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa de Buteco]]></category>
		<category><![CDATA[Cruz]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade do Ocidente]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Luiz Felipe Pondé dispensa comentários e introduções a seu respeito. Desde que começou a escrever na Folha de São Paulo e ministrar cursos nas séries filosóficas da TV Cultura, todos nós ouvimos e nos impressionamos com a sua contradição, clareza e profundidade.</p>
<p>Nunca antes publicamos textos de outros autores aqui no nosso site, no entanto, de forma muito apropriada apareceu essa pérola de reflexão que compartilhamos com vocês a fim de oferecer mais um elemento que compõe nossa visão de mundo. Mais ainda, nas palavras de um cara que experimentou outras veredas nessa Criação tão diversa e viva que nos é dádiva.</p>
<p>Boa leitura.</p>
<p>Marcos Almeida</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>ANOS ATRÁS, em Paris, o historiador <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Le_Goff" target="_blank">Jacques Le Goff</a> me falava da sua preocupação com o destino da cultura ocidental. Para ele, o Ocidente poderia perder sua identidade como resultado de sua própria produção cultural.</p>
<p>Outros intelectuais também partilhariam de suas inquietações. Entre eles, o antropólogo <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Claude_L%C3%A9vi-Strauss" target="_blank">Lévi-Strauss</a>, morto semana passada. Le Goff se inquietava porque parte das agonias da cultura ocidental teria sido fruto dos &#8220;achados&#8221; da história e da antropologia e seus frutos, as filosofias e políticas relativistas do século 20.</p>
<p>O relativismo existe desde os sofistas gregos e tem em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Prot%C3%A1goras_de_Abdera" target="_blank">Protágoras</a> seu ícone máximo de então. Mas o que é &#8220;relativismo&#8221;? Em Protágoras é: &#8220;O homem é a medida de todas as coisas&#8221; (versão curta). Isto quer dizer que tudo é criação humana: a moral, a religião, enfim, as verdades de cada cultura. Sentados num bar, diríamos: &#8220;Cada um é cada um&#8221;.</p>
<p>A história contemporânea acentuou essa versão das coisas quando afirmou que as épocas têm suas concepções de mundo específicas e que não podemos dizer que uma época seja melhor do que a outra. A antropologia, por sua vez (e aqui entra Lévi-Strauss), afirmou que as culturas não podem ser comparadas umas com as outras sem cometermos o pecado de não percebermos que cada cultura seria um sistema fechado em si mesmo, onde um comportamento só poderia ser julgado pelos valores morais da própria cultura.</p>
<p>Por exemplo, matar bebês pode ser um horror moral acima do equador e uma obrigação sublime abaixo do equador. É comum remeter a Lévi-Strauss a descoberta da &#8220;dignidade intrínseca&#8221; de cada cultura, e que não se deve julgar uma cultura usando valores de outras.</p>
<p>Não há dúvida que essa atitude é essencial para a antropologia. O problema começaria quando pensamos no impacto do relativismo no próprio Ocidente que o inventou. Dito de outra forma: o relativismo se transformou numa militância política e moral apenas no Ocidente. Enquanto os ocidentais estariam sofrendo de uma &#8220;indigestão&#8221; devido à assimilação do relativismo, as &#8220;outras&#8221; culturas, estudadas pelos próprios ocidentais, permaneceriam no seu repouso não contaminado pelo relativismo. Trocando em miúdos: muçulmanos podem permanecer acreditando em seu paraíso com virgens, índios em seus espíritos da floresta, enfim, apenas os ocidentais deveriam &#8220;relativizar&#8221; seu Deus e suas &#8220;verdades&#8221;.</p>
<p>Sendo os cientistas sociais, os filósofos, os professores e os jornalistas maciçamente ocidentais, seriam as crianças deles que deveriam ser educadas duvidando da validade universal de seu mundo. Aí entra a inquietação de Le Goff: o Ocidente poderia se dissolver como identidade à medida que relativizaria a si mesmo, enquanto as &#8220;outras&#8221; culturas seriam poupadas da crítica relativista, porque indiferentes à angústia relativista ocidental e, também, porque contam com a simpatia do Ocidente nessa indiferença e na defesa de sua &#8220;dignidade intrínseca&#8221;.</p>
<p>A verdade é que os homens são sempre contraditórios e, ainda que eu não saiba se Lévi-Strauss de fato partilhava da mesma angustia de Le Goff, algumas pessoas afirmam que ele admirava seu avô Rabino e que julgava os racionalistas ateus uns chatos e preferiria aqueles que acreditam em Deus. Pode ser boato, mas isso faria dele um homem mais interessante do que alguns que engoliram o relativismo assim como quem come pão e vai ao circo.</p>
<p>Um exemplo da &#8220;indigestão&#8221; causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia &#8220;desrespeitado&#8221; porque, não sendo cristão, tinha que frequentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.</p>
<p>Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.</p>
<p><span style="font-size: 85%;">Luiz Felipe Pondé</span></p>
<p><span style="font-size: 85%;">09.Nov. 2009<br />
</span></p>
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